
Preencha os campos abaixo para submeter seu pedido de música:

Quando a gente pensa em “Ainda Estou Aqui” – primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar na história – é impossível não lembrar imediatamente em “É Preciso dar um Jeito Meu Amigo”, canção na voz de Erasmo Carlos que tornou-se a música tema do longa.
Hoje, no dia do aniversário do Tremendão – que estaria completando 85 anos, se não tivesse nos deixado em novembro de 2022 – vamos saber a história por trás dessa, que é uma de suas músicas mais importantes e emblemáticas.
A história por trás de “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”
Lançada no álbum “Carlos, Erasmo”, de 1971, “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo” é uma parceria de Erasmo Carlos com seu amigo e parceiro mais constante (juntos, eles compuseram mais de 200 canções!): Roberto Carlos.
Depois de se tornarem ídolos de uma geração ao encabeçarem a Jovem Guarda e atingirem o auge do sucesso – com o fim do movimento, em 1968 – Roberto e Erasmo seguiram as suas carreiras. Roberto Carlos focou na música romântica e tornou-se tão popular que passou a ser chamado de Rei, sendo considerado o maior cantor do Brasil.
Já Erasmo Carlos começou a achar o seu caminho artístico quando compôs – junto com Roberto – as músicas “Sentado à Beira do Caminho” e “Coqueiro Verde”, com um estilo que se aproximava mais dos artistas tropicalistas, como Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Essas músicas foram lançadas no sexto disco de Erasmo, de 1970, considerado pelo próprio Tremendão a sua transição para uma fase muito mais madura do que a que vivia na Jovem Guarda. O artista passou a ter mais consciência das questões políticas e sociais do país e queria trazer também a psicodelia e o soul para a sua música.
Naquele ano, ele disse ao Jornal do Brasil: “Na época da Jovem Guarda a gente era muito alienado. A gente estava deslumbrado com o dinheiro que ganhava, comprando coisas que a gente queria comprar. Agora é época de consciência, dos versos apurados da poesia entendível pelo ignorante e pelo culto”

O que acontecia é que em tempos duros de repressão – no auge da Ditadura Militar e diante da recente instauração do Ato Institucional nº 5, com o cerceamento das liberdades democráticas, de expressão e das criações libertárias – dentro da música brasileira, a turma da Jovem Guarda era considerada alienada, artistas que não se posicionaram e que estavam mais à direita ou ao centro politicamente.
Porque a gente sabe que – em tempos de ataque à democracia, como eram os tempos de ditadura – quem não toma partido nenhum ou segue omisso, acaba – involuntariamente – escolhendo um lado.
Roberto, principalmente, evitava falar de política por causa de sua imensa popularidade no Brasil inteiro, mas ele era cobrado para se posicionar sobre o assunto, seja em suas músicas ou em suas entrevistas, tanto pelo meio artístico quanto pela imprensa. E Roberto e Erasmo também não eram tão letrados politicamente quanto outros artistas.
Em uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo em 1970, o jornalista perguntou para Roberto Carlos se ele tinha consciência das suas obrigações de dar aos jovens algo mais do que simples ritmo e movimento, principalmente pelo acesso que ele tinha a uma faixa imensa desses jovens.
Roberto respondeu assim: “Olha eu gostava de curtir Bob Dylan falando dos problemas que ele falava, das músicas de protesto que ele fazia. Mas talvez não fosse um o gênero de música ou não fosse um negócio que eu me adaptasse bem cantando. Mas, sabe, eu sou bem preocupado com o problema da pobreza, da injustiça, eu fico muito chateado com essa história de perseguição dos hippies, etc.”.
Por outro lado, tínhamos os artistas Tropicalistas como Gil, Caetano, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes – junto com aqueles cantores de protesto, mais nacionalistas, como Geraldo Vandré, Chico Buarque e Edu Lobo – que enfrentavam diretamente o regime militar por meio de suas letrase tinham atitudes libertárias que incomodavam o regime e – por isso – sofreram forte censura e perseguição.
Com o AI-5, Caetano Veloso e Gilberto Gil – já grandes ídolos de uma geração e líderes do movimento Tropicalista – foram presos em novembro de 1968 (acusados injustamente de terem desrespeitado o hino nacional durante um de seus shows) e, depois, obrigados a se exilar em Londres.

Em 1969, Roberto Carlos foi para Londres para ver com os próprios olhos o que acontecia com as pessoas consideradas subversivas pelo regime. Lá, visitou Caetano (de quem era muito amigo) e Gil e ficou profundamente tocado pelo encontro com os baianos.
Foi ali que Roberto finalmente acordou para as torturas, prisões, sequestros, mortes, enfim, sobre o estado que o país se encontrava nos tempos violentos da ditadura militar.
O Rei então voltou para casa pensando naquilo e comentou com o parceiro Erasmo Carlos como é que podia pessoas tão sensíveis serem mandadas embora do seu país. Foi assim, logo que voltou de Londres, que Roberto escreveu – junto com Erasmo – uma outra canção muito famosa, em homenagem ao seu amigo Caetano Veloso, que estava muito deprimido no exílio: “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, sobre a qual já contamos a história aqui.
“Um dia a areia branca
Seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar
Janelas e portas vão se abrir
Pra ver você chegar
E ao se sentir em casa
Sorrindo vai chorar”
Fonte: Nova Brasil